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Há dois anos...

Segunda, 17 de Junho de 2019

Era um sábado de alerta amarelo, o dia no quartel decorria com a normalidade dos dias movimentados, dos dias em que os serviços de saúde abundavam e a equipa de ELAC fazia a manutenção prevista para quem está alerta e pronto para sair em combate. Almoço e café tomados, tendo sido então a equipa ativada para o incêndio de Góis - Álvares. Saída planeada e concretizada, alguns minutos passados, a alguns kms do quartel esta equipa avista uma coluna de fumo, reporta à central e muda o seu destino: daqui dirigem-se para Figueiró dos Vinhos em Moinhos Cimeiros, enquanto o incêndio de Pedrogão Grande já lavrava com força; dominado o de Figueiró dos Vinhos prossegue o de Pedrogão Grande que se vai estendendo para Figueiró e daqui, ato contínuo, chega ao Concelho de Penela, saindo então várias das nossas equipas, que se iam multiplicando na medida dos voluntários que se apresentavam à chamada de reforço, sendo posicionadas nestes locais do Concelho; os nossos homens e mulheres saiam conscientes de que iriam acarear com a besta serpenteante, audaciosos, mas responsáveis para lidar com tal feracidade usando a tecnicidade operacional e a ponderação humana, exigidas para decisões e ações concertadas.

A partir daqui, e durante um longo tempo que se tornou interminável, não mais pararam os alertas, as ativações os pedidos de reforço; mais de dois terços do CB esteve presente, não só para ir para as frentes de fogo que se iam sucedendo imparáveis e destrutivas, mas também, e com igual dedicação e afinco, para assegurar os serviços de emergência pré-hospitalar e de transporte de doentes em tratamentos. A este movimento e corrupio, inerente às atividades usuais e excecionais dos operacionais do CB, vieram juntar-se as dinâmicas e respetivos apoios na logística que, de forma indescritivelmente célere, começaram a aumentar: a preparação de comida foi sendo cada vez mais numerosa, os grupos e equipas de diversas associações locais foram chegando continuamente para assegurar que as refeições eram servidas e chegavam em tempo e condições decentes a todos os que não se iam poupando a esforços; paralelamente começaram a chegar víveres dos donativos da população, multiplicam-se os produtos e as necessidades de os armazenar convenientemente, uns mais perecíveis que outros e a exigirem condições diferentes. Num algoritmo de forças que crescem no mesmo sentido, as frentes de fogo vão-se multiplicando, num medir forças em que o humano e a natureza em geral são sempre perdedores com consequências irreparáveis; assim o país, o distrito, o concelho ficou em hiperalerta: saíram os nossos bombeiros para o combate aos incêndios, chegaram as diferentes forças da proteção civil, chegaram reforços e rendições. Na qualidade de um dos três postos de comando no combate ao inferno do agora apelidado incêndio e tragédia de Pedrogão Grande: saiam homens e mulheres com olhos de dedicação e movimentos determinados na luta cuidada e consistentemente preparada com a tecnicidade que os habilita a enfrentar a besta, besta que se alimenta de tudo o que apanha à sua frente, tragando vegetação, pessoas, casas, animais ...; entravam homens e mulheres com rostos e fardas cobertos de cinza, olhos e sorrisos tristes e desolados, nunca desistentes; reuniram-se homens e mulheres de olhar e postura séria, daquela seriedade que devia fazer recolher qualquer besta insaciável, estes refletiram, analisaram e decidiram estratégias de intervenção, procuraram potenciar forças e diminuir vulnerabilidades.... Prosseguiram nessa missão reunindo as suas múltiplas e diversificadas capacidades, experiências e recursos, dali saíram ordens, organizaram-se operacionais no terreno e coordenou-se a força humana que se foi procurando aumentar para fazer face ao engordar contínuo da besta. A besta que se estendeu pelas serras serpenteando a seu belo prazer, sacudindo-se como uma odalisca provocante e sedutora que atrai e trai para engolir, sufocar e enfraquecer quem a enfrenta. Esta besta parecia emprenhar continua e incessantemente explodindo crias à sua volta, crias que teimavam crescer à custa de uma natureza preciosa, de vidas humanas, de sorrisos e projetos.

Foi este o cenário que nos assolou ao longo de dias, num continuum avassalador, onde o velho confronto entre humano e elementos da natureza compeliu a inevitável e impressionante força de estarmos juntos, a concertação do pensarmos e do sentirmos e a ostentação de solidariedade e generosidade. Deste confronto, em que a besta acabou por ser derreada, ficou uma rasto de destruição e desolação do qual foram jorrando dores, tristezas, consternações, raivas, revoltas, aprendizagens, dar de mãos, esperanças e amizades, ajuda e comoções, reconstrução e reflexão; partir daqui revalidam-se questões sobre quem somos e para onde vamos, ensaiam-se novas compreensões do nosso Ser e Pertencer, renomeia-se o respeito pelo Eu, pelo Outro e pelo Nós.

Dois anos passados muito está para expurgar, muito está por laborar, muito está por acalentar dentro de homens, mulheres e crianças que lá estiveram, dentro de homens, mulheres e crianças que se afligiram e afligem com os que lá estiveram, dentro de homens, mulheres e crianças que dão a mão aos que lá estiveram …!

Ainda tanto para criar e recriar, amores e saudades para compor, medos e ternuras para sentir … é a vida no seu fulgor em cada árvore plantada, em cada flor desabrochada, em cada parede erguida, em cada lágrima secada, em cada sorriso partilhado, em cada palavra libertada … vida que ganha sentido na partilha, no estar ao lado e no bem querer que nos fortalece!